Depredações e ditaduras fizeram da antiga parte rica da ilha um recinto para pobres e um ponto de início de crises políticas.
No famoso e ao mesmo tempo polémico bestseller “Clash of Civilizations” (Choque de Civilizações) revela o politólogo americano Samuel Huntington o mundo em oito círculos culturais rivais. E criou uma categoria especial fora destes: os chamados Estados Solitários – que caracterizam-se pela falta de ligação com qualquer uma das oito civilizações principais do mundo.
Haiti, o país mais pobre do hemisfério ocidental é um Estado Solitário. Haiti não encontra-se ligado nem à cultura derivada do inglês, nem àquela latino-americana, de acordo com Huntington. Haiti é o vizinho que ninguém quer. Verdadeiramente um país sem parentes.
O Haiti está situado no lado ocidental da ilha Hispaniola, que forma junto à Jamaica, Cuba e Porto Rico as Grandes Antilhas. A tragédia da sua história começa com o descobrimento da ilha por Colombo. Este e seus sucessores escravizaram os povos locais e exploraram o precioso ouro por completo. Como substituição dos habitantes locais que estavam a morrer por causa das condições em que foram submetidos, os espanhóis trataram de “importar” escravos da África. E são os descendentes destes que formam hoje a população haitiana. No lado oposto da ilha, a França – na época rival da Espanha – estabelecia a primeira colónia no ano de 1665.
A ilha caribenha manteve-se disputada pelos espanhóis e franceses por décadas, até que em 1795 pudesse ser declarada livre. As reservas de ouro acabaram e os espanhóis retiraram-se da região.
A parte francesa da ilha tornou-se por um tempo a colónia mais rica da França, por causa das plantações de cana-de-açúcar e da exploração dos escravos negros. Era apelidada de Pérola das Antilhas. Ao final do século XVIII, o ex-escravo Toussaint L’Ouverture luta pela libertação da colónia e sucumbe, porém, às tropas napoleónicas e falece. No ano de 1799 acontece então uma guerra civil entre mulatos e negros. Em 1803, o general negro Jean-Jacques Dessaline decide combater à França e, em 1804 é declarada a liberdade do pedaço de terra, com o nome de Haiti. Assim surgiu a primeira nação do mundo que ergue-se de escravos negros.
Dessaline cai na armadilha do poder: nomeia-se imperador e acaba por ser assassinado. Haiti torna-se República. O caos político continuava e os franceses restantes eram massacrados e as plantações destes eram invadidas e acabavam por apodrecer. Posteriormente, aos ex-proprietários franceses das terras foram enviadas somas horrendas indemnização e a economia haitiana não suportou, decaindo terrivelmente.
Um dos sucessores de Dessaline fez-se rei e tornou Haiti em monarquia. Construi então uma das mais poderosas (e inúteis) fortalezas do mundo. Desde a descoberta de Colombo, a ilha sofreu puro massacre, exploração, escravidão, guerras civis e tirania, que foram as raízes da miséria haitiana.
Somente no ano de 1844 é que a parte oriental da ilha declara a independência, como República Dominicana. Ao contrário do Haiti, aqui regem os mulatos e descendentes de europeus e a região foi alvo de diversas intervenções americanas.
A influência dos EUA nas Caraíbas (que tomaram conta do Haiti entre 1915 e 1934) estabilizou a República Dominicana política- e economicamente através da força.
A autodestruição anárquica do Haiti não foi contida pelos EUA. O PIB per capita da Rep. Dominicana supera os USD 4000, enquanto do Haiti ronda os USD 600. A ajuda massiva de Obama não é somente de pura e altruísta forma: Washington quer é aumentar a sua influência política.
Mas que a estrutura haitiana em relaçao à democracia e economia nunca pôde ser desenvolvida também é reflexo das ditaduras brutais vividas pelo pequeno país. Os Duvalier “Papa Doc” (médico da região) e “Baby Doc” aterrorizaram com os “Tontons Macoutes” (“Tiozinho Canibal”), que era uma mistura de Gestapo e SS. Os grupos de tortura oprimiram quaisquer movimentos democráticos por anos. E brincaram também com a crença dos crioulos: o vudu, que ainda era muito utilizado pelos descendetes de africanos na região. No vudu existem zumbis, e os Tios Canibais afirmavam serem zumbis, criando uma onda de medo maior ainda entre os habitantes.Mas mesmo após a queda dos Duvalier, Haiti não teve sossego. Militares e ditadores civis alternavam no poder. A grande esperança surgiu e frustrou quando o pobre padre Jean-Bertrand Aristide foi escolhido. Porém, foi também um traidor, que aterrorizou a população com um grupo semelhante aos Tontons – os Chimeres. Depois de conturbações sociais, Aristide foge no ano de 2004 à África do Sul, exilado, mas com esperanças de voltar ao Haiti, com triunfo. Desde então, seis primeiros-ministros foram nominados no país. 9000 boinas azuis da ONU tentam evitar a destruição do país e combater à criminalidade: tudo isso são consequências da falta de ordem do Estado.
O maior problema do país é que não há nenhuma tradição democrática ou um exemplo de sociedade funcional, nos quais poderiam espelhar-se. Ao contrário, sua tradição é repleta de violência e exploração. 80 por cento dos haitianos tentam sobreviver com menos de USD 2 ao dia e metade da população é considerada subnutrida.
Junto ao problema causado pelos humanos, a natureza ainda contribui: secas, tempestades, terremotos. Há cerca de dois anos, 3 furacões consecutivos mataram cerca de 800 pessoas.
Hoje, as ruas do Haiti estão repletas de cadáveres. Cobertas por corpos sem vida, para os quais não há espaço. De acordo com a Cruz Vermelha, a quantidade de mortos pode chegar a 100 mil, vítimas da catástrofe natural da última terça-feira. A tarefa mais importante agora é retirar os cadáveres das ruas, afirma o prefeito de Port-au-Prince. Porém, não há nenhum material disponível para assistir aos vivos e recolher os mortos.
A rapidez é necessária, pois, em temperaturas médias que rondam os 27° C, os cadáveres apodrecem rapidamente, o que resulta no aparecimento de pragas. Um repórter da revista “Time” diz que, na noite de sexta-feira, cenas dramáticas originadas pela dúvida e desespero dos haitianos foram registadas: os habitantes bloqueiam ruas com corpos, como forma de protesto à falta de ajuda.
Haiti – o país sem esperanças. Neste ano ocorrem eleições presidenciais. Isto se os militares não intervierem novamente com um Golpe de Estado.
